segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

C(s)into



Puxo o cinto de segurança, e prendo do lado esquerdo. Acima o meu peito, a faixa que promete me assegurar de acidentes e maledicências - ironia quem sabe, por estar ao seu lado e isso me fingir uma proteção (frágil). Sem me mover, assisto à toda sua concentração em analisar a vaga, retirar o carro, trocar de marcha, e ter cuidado ao virar o volante; o abano ao porteiro do prédio. É dia, e a cidade ainda vazia. É cedo, e o silêncio matutino parece fazer com que tudo pare apenas para nos assistir. Nessa manhã onde desde o gosto na boca, o sabor de diferença impera os sentidos . De acordar e em silêncio, te observar também quieto, vendo quem sabe esse meu lado que tenho e não revelo - de ser calada, quando convém. Pensar que é verão, e mesmo o calor insuportável lá fora, com você as paredes que nos cercam traduzem a amenidade que sinto, nessa sua presença leviana. Ver você em mim sumindo, da minha vida se tornando cada vez mais turvo, inexistente, é querer abraçar com todas as forças os últimos momentos, os minutos finais, e você bem forte, para quem sabe nesse enlace te reavivar para nós, te reafirmar para mim: não te perder nesse baú do inconsciente, que chamamos memória. Quando você me largar na frente de casa, e parar por segundos para me gravar para os tantos dias que irão nos separar, vou querer ficar nesse momento tempo demais do que ele na realidade dura. Sei que fantasiarei como quando se você estivesse aqui, e eu pudesse pegar a sua mão e caminhar pelos jardins, por entre as praças que, silenciosas, nos ouviam passar colorir os desvios dialogando idéias e subterfúgios. Noites em que, com a inspeção dos seus olhos, deitei a cabeça no braço do seu sofá, e quase adormecida, sentia a completude de todo esse patamar; que desbravo sempre, e até me surpreendo - mas que não suporto ser sempre descoberta e encantada, para logo depois lidar com essas perdas que nem ao menos sei se algum dia me pertenceram realmente. Nesse seu carro que mais flutua que anda, a sensação é de estar à caminho do céu, e frear bruscamente na esquina da minha casa, quase no estacionamento ao lado. Parada obrigatória, falha mecânica, falta de combustível. Eu presa; não tanto pelo cinto, mas por você e esse seu jeito pacato de não dar bola pra nada na vida, enquanto eu sou a preocupação excessiva, o caos em forma humana - uma aflita explosão. Presa fácil, que você rodeia, rodeia, faz de distante e surpreende quando perto, mas cativa. Mesmo irresponsável, cativa. Sua voz que abranda e diz: tenha um bom dia. Enquanto tudo que o pensamento consegue concluir é que, sem você, dia nenhum vale a pena ser condecorado na agenda com frases sem nexo, apaixonadas. Estancada no que sinto, e faço questão de não falar, apenas pensado: não vai, não vai, não vai. Mesmo assistindo à tantas partidas, dizer esse adeus é a fala que não me sai da boca, o sentimento de perda que não aprendi a abrigar. Sendo tantos, não aceitando mais da metade.
Minhas mãos entrelaçadas no final do seu cabelo, como quem não quer soltar um momento, mais uma pessoa, alguma existência que a vida tem me ensinado, e eu, fiel aluna, compreendido. Sem aguentar mais uma perda para aviões lotados, e cidades imundas. Nesse abraço que dura tanto tempo que pessoas surgem, carros buzinam, e a cidade volta ao ritmo enlouquecedor de todo dia que não é santo mas faz calendário, é que a gente se prendeu por algum momento que me faz ainda pensar se a volta algum dia foi marcada e o aviso ainda não chegou aqui. Por enquanto, me sinto carcerária: pouco por essa faixa que me prendeu de você, em seu itinerário; muito por esse sentimento que brotou e me preencheu, na hora menos esperada. Com as chaves em mão, volta e me busca, moço. Tira essa melancolia que deixou na liberdade provisória que me autoconcebi, traz no regresso algum sentido pra essas idéias que se não são em você, se tornam todas desviadas, tiros ao léu. A sua alegria, a minha espontaneidade. Sua calmaria, o meu furacão. Volta que perder tempo é burrice, você é saudade, e momentos como aquele, o meu chão.

and happy new year


Tira do armário o vestido branco, passado, lavado e fora de uso. Rasga a etiqueta, e deixa a peça única sobre a cama, à espera do banho demorado de sal grosso, ritual de limpeza e purificação da alma, da mente, do corpo e do ser. Toca no cabeça, máscara nos fios dourados, para rituar com os fios brilhantes, dourados. Com calma, banho demorado, temperatura morna e ambiente. O sal desce as curvas, grosso, eliminando os encostos, as almas ruins que grudaram, aderiram à pele e devastaram com stress, deixando a derme com aspecto de cansaço, fisionomia abatida. Promessa de sorte, de leveza na vivência, dia-a-dia longe dos ladrões de caráter, essência. Retirar de perto gente medíocre e sem perspectiva. Sobe a fumaça, e a tosse seca, garganta carregada. As temidas relações tóxicas, pensa. Alimentada pela água mais quente do que o normal, pela época fresca e acalorada do ano? Evidente. alérgica como de costume, tosse compulsivamente, e volta a idéia que lera. Tudo indo pelo ralo? Talvez seja a hora. Desprender os laços que ainda abafam, fazem mal. Ligam os fios já um pouco eletrocutados, desemcapados e sim - tantos choques, horas de inconsciência e machucados que passam, mas viciam. Adicta de bater portas e aceitar perdões tão sem jeito nem cara, em cima de desculpas montadas com pressa e sem nexo algum. Sempre o discurso inexato do quanto era importante, tudo o que representava e as promessas mil de melhoria, reconstrução e uma paz improvável. Caía, caiu diversas vezes, e hoje não tinha mais vontade de acreditar. Resolve que deixará então a vida guiar, que as coisas aconteçam, e não esquecer apenas num canto: seus princípios e valores. Mais valorosos que beijos sem paixão, e algumas mentiras sinceras. Tão descaradas que mais tarde deixam sem chão, fazem sofrer em dobro.
Seca-se com a toalha que elimina os resquícios ainda existentes de qualquer passado inconveniente, fricciona o tecido atoalhado afim de tirar o peso das costas, as marcas de sofrimento e tudo que não serve mais, e insite em grudar. Como uma música de propaganda na boca, um chiclete sem gosto entre os dentes e a saliva seca nos lábios; mais tarde, rachaduras, cáries e a mesma canção de rima pobre rodando entre a mente e a prosperidade que almeja, todo o futuro que quer viver, e tem pressa, necessidade.
Um creme no corpo, pernas para segurar das ventanias emocionais sem deixar abater, ombros para deixar pescoço ereto, cabeça erguida e orgulho das ações, sejam errôneas ou totalmente assertivas. Mãos macias, segurar cordas com força, cabo-de-guerra contra todo esse mau-olhado, urucubaca desgostosa. Brincos nas orelhas, colar entre as saboneteiras protuberantes, o colo bonito e o vestido branco, roupa de baixo vermelha, rosa e roxa. Paixão, amor e luxúria! Respectivamente..E na ordem das aspirações, desejos urgentes. Um sapato de salto para dar equilíbrio e auto-confiança, figura de mulher que não se abstêm, não se deixa abater e continua na guerra diária, aconteça o que seja..
Terminado o ritual, pós carnavalesco, o ano começa agora! O que antes vivíamos e era uma ilusão tão doce e perigosa, essa alegoria de sentimentos que pairavam e não encontravam raíz, placa mãe. O esquecimento do plano real que hoje regressa à casa, como um filho pródigo e aclamado, sendo pedido por todos já cansados de girar nesse carrosel de sentimentos que apenas circula, volteia e não pára nunca para as tomadas de decisão, a realidade nua e crua, tal como deve ser a vida. Imaginação viva, e os pés no chão. Sem deixar-se voar ou levar pela ventania das frases de efeito, e das atitudes floreadamente cortês, falsas intenções, segundas, terceiras..Peço muito um amor verdadeiro e duradouro, real. Depois, saúde para mim e para aqueles que amo, que zelo. Dos que não me querem bem, apenas o bem deles, e sua ausência, seu esquecimento e afastamento. Fé, para que mesmo com os desafios à vista, não pare de remar, navegar; desistir. Coragem para seguir em frente, um pouco nos bolsos sempre é bom - precaução. Alguns ideais, e umas metas para não tornar-se alienada, vencer a inércia com êxito. E nos lábios, um sorriso. Aproxima quem deseja um abraço, uma felicidade. E deixa longe quem inveja sente, quem o mal deseja.
Isso basta, e o ritmo a partir de amanhã muda. Resoluções postas à mesa, no papel com caneta azul esferográfica, torcer para que algum santo ou deus tenha lido ou escutado, visto. Com fé, muita fé e o mesmo sorriso tímido apenas de dentes superiores. And a happy new year, relembra um dos hinos natalinos e olhando pela janela, fala baixo apenas para ela mesma: feliz ano novo. Vai até a janela, e deixar o grito sair do corpo. Feliz ano novo!

(A novidade do ano, quem faz é você. Pode ser hoje, amanhã, ontem, ou dia primeiro. Feliz ano novo, quando a mudança estiver entre suas prioridades. Inovando é que se inicia um ciclo totalmente em branco. Happy new year!)

Ou muito mais que isso.


- Por que você gosta tanto de mim?

(Segundos suspensos no ar. Mente que roda ativa, procurando alguma resposta cabível e imparcial; válida, e compreensível. A escuridão do cômodo refletindo apenas o teu olho branco, que brilha acompanha meus movimentos lentos, enquanto eu mesma me pergunto: como gostar tanto de você? Pelo aprendizado, quem sabe. Por você estar de meias brancas, e não pretas. Por esse destino traiçoeiro, que me entrega um cartão com o seu nome, me faz escutar teu sotaque em cada esquina dessa cidade turística, e te ver em outras pessoas, a qualquer momento; desprevenida. Ser apaixonada pela sua barba, e seu cabelo assim, comprido - e não curto. E passear minhas mãos por entre os fios escuros, porque meu cabelo é liso e claro demais pra qualquer cafuné. Gosto de ir conversando a vida aos poucos, como quem não tem pressa de acontecer. De poder rir da sua letra, visivelmente máscula. Ver que você se esforça pra ser sempre mais, melhor. E achar isso completamente afrodisíaco. Poder brincar de qualquer festim existente; sem deixar o tédio consumir vezenquando. Massagear as tuas costas. Detestar em conjunto à ti tomate e cabelos curtos, e usar o mesmo shampoo, e a mesma pasta de dente; por mero acaso, e não por indicação, ou combinação. E ainda assim, adorar a adversidade de gostos musicais, nos separando tanto em afinidade.  Lembrar de algum momento memorável, e sorrir sozinha, um pouco boba e totalmente insana. Pensar em você, e bobagens purpurinadas brilharem na minha mente. E num atentado de loucura ao meu pudor, comprar um brinquedo que te lembra a infância; deixar na sua portaria, para surpreender de qualquer maneira. Rir do seu ciúme bobo dos atores da televisão, e sorrir me sentindo quase uma lagartixa; esmagada na parede, sob a sua respiração forte na minha orelha miúda. Pedir pra você um sorriso, quando você quase me sufoca entre braços. Conversar sobre o meu futuro, e o seu. Ouvir atenta as sugestões que você sempre me dá do que fazer, de que caminho seguir. Fechar os olhos, quando você beija a minha testa. Roçar o meu nariz no teu, porque eu acho beijo-de-esquimó o gesto mais simples, e ao mesmo tempo mais puro, de amor. E nunca me assustar realmente, ou rir, quando você finge ter um ataque do coração, ou quase morrer. Mas não saber o que fazer, caso isso realmente acontecesse. Sempre esquecer algo, seja minha sombrinha inseparável, ou algum brinco - como num ato coincidente de deixar minha marca, mesmo que sublime.
Apreciar até mesmo a roupa que detesto, e que você coloca apenas pra ficar em casa; ter um carinho pelo chinelo enorme com meia, que você usa. Querer viajar o mundo na tua companhia, e nunca revelar isso - se fosse o litoral, eu já ficaria feliz. Acampar, e olhar o céu estrelado. Amar o teu perfume; e senti-lo em todo lugar, em uma festa qualquer, e no meio do shopping. Qualquer toque, e cógegas; e logo depois, rir de tamanha sensibilidade. Te encontrar nem que seja em algumas horas do meu dia, suficientes pra me fazer feliz até um próximo encontro. Não existe uma razão, e sim, tantas. E ao mesmo tempo, nenhuma. O que há é algum sentimento, e escravidão louca, que me faz retornar sempre. Gosto, porque gosto.  E não precisa ser dito. Talvez, porque há sempre algum empecilho, tantas barreiras a serem vencidas, e eu gosto de ser colocada à prova; sei posso vencer essas, e quaisquer dificuldades, quando quero algo. Pergunta cretina, e justo agora. Se eu realmente explicasse, nem o tempo seria exato, as palavras me fugiriam, e eu gaguejaria, aposto todas. Então, improviso.)

- Ah...Porque, sei lá. Não sei se tem um porque. Eu gosto de conversar contigo, a gente tem química, e é isso, eu acho. E tu, porque tu gosta tanto de mim?
- Porque tu me deixa louco.

Homens, sempre homens. E...Não é amor. Quem sabe um dia se torne, ou nunca aconteça. Por enquanto, não. Uma pena, um engano. Ou muito mais que isso.

Cadente.


- Que horas você nasceu?
- E eu sei lá...Sei só o dia, o mês, o ano.
- Hm. Deveria saber.. Quase todo mundo sabe.
- Não sei mesmo. Você sabe que horas nasceu?
- Sei, né.
- Tá, e que diferença isso faz?
- Pra mim, ou pra ti?
- Pro mundo. Brincadeira, mas sério, o que isso tem de mais? É só um horário.
- Se tu acredita em destino, deveria pensar melhor nisso também. Naquilo que faz o dia ser claro, e a noite, fosca. E nos faz dormir, acordar, malhar cedo, e amar o pôr-do-sol. No mundo que roda, entende.
- Acredito em destino, mas ainda continuo não entendendo aonde você quer chegar, com tudo isso...
- Eu nasci meio-dia, e meia-hora. E sou metade apenas nisso, não é curioso?
- Sim. Que mais?
- Sabe, na metade diurna, é quando o sol encontra o ponto mais alto no céu, e brilha, aquece. Você sabe, me bronzeio por horas, porque gosto. Também talvez seja por isso, que eu goste de altura, de me jogar assim desses precipícios da vida, leviana. Sem medo nenhum. Tô lá, tão alto, que quase ninguém me pega. Inalcançável.
- Ou quem sabe, que você seja assim, sozinha e intangível, por pura opção. Inconstante, e temperamental, feito a lua. Fica vendo as estrelas brilharem, e deixa passar, preocupada apenas com o íntimo próprio, sumindo às vezes, e reaparecendo cheia de luz, revigorada.
- Posso ser também, uma filha da lua, e uma amante do sol. Imagina, só...A descrição perfeita talvez.
- E onde fico eu, nisso tudo?
- Você é a minha estrela predileta. Cadente.

(E enquanto ele mudou o canal, e o assunto também pulou para outro barco, pude pensar e sentir, que a cadência ali era recíproca, ou quem sabe, real. Enraizada. Por entre silêncios, e olhares furtivos. Sem falas decoradas, e humores maquiados. Porque cadente mesmo, só essa estrela que passa, e a gente deseja que fique; corre procurando por onde se perdeu os vestígios da explosão. Sábios de que se encontrarmos, pra sempre serão nossos.)

A mentira.


"A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer." Mário Quintana

Sem mais ilusões pro coração, com o ar cético que nunca me fez bem, foi depois de um surto de saudade momentâneo que conclui: o que vivi não passou de uma verdade inventada. Sem sentido, abstrata, ilusória.
Logo eu, que glorifiquei tantas e tantas vezes mentiras sinceras, que até me interessavam. Até me deparar com essa situação desvirtuada a qual me vi devota. Uma confusão onde eu desenhava por cima da imagem real castelos e príncipes encantados - me esquecendo que onde há reino, há rei. E onde há rei, pode haver muita tirania. Injustiça também.
Minha mágoa se compôs em querer tanto acreditar que o carrossel de emoções que ora subiam, e por vezes vinham à terra, era de carne e osso e existente, que consistia em algo que poderia perecer ao tempo e à distância, quando na verdade, não. Chegava mais perto, e mesmo escutando cada palavra bela do que compunha o punhado de fantasias indiciosas, me deixava embalar pelo som das palavras angelicalmente grotescas que saíam da sua mandíbula articulada para me enganar. Sem nem ao menos prestar atenção nos sinais de insegurança que emitias, em sua índole contrabandeada, ou em sua fisionomia tão condizente com o que até mim se norteava. Seus falsos argumentos, suas desculpas já gastas, de tão esfarrapadas. E eu pegava no colo, e protegia, com zelo e cuidado, até mesmo cada erro do que um dia se voltaria contra mim. Todos esses teus medos, tão injustificados.
Sentir falta de uma mentira não é se enganar; fica mais fácil de se encarar de frente o vazio deixado e a ferida provocada, para então perguntar: aonde é que toda aquela chama foi parar? Sem nunca obter respostas, caída tão dentro do que nem ao mesmo existiu, e confundir o efetivo com ledo engano. Me pergunto pra onde se bandearam todos aqueles sonhos, tão infantis, ou minha ideologias, tão furadas e batidas. Sumiram, morreram, travaram. Empacaram. Enquanto toda essa inocência inadaptável queria firmemente acreditar, construía motivos para crer, a lógica se esvaia; a esperteza pegava carona, e a cova dos sonhos se via cada vez mais funda. Nas desculpas esfarrapadas, visão embaralhada e assistia então a: motivos altamente convincentes. E a novela, de tanto suspense se alimentava, suas pernas curtas corria com rapidez, e inflava, cada vez mais. Até se tornar uma bolha de camada tão fina, e de cunho insuportável, que estourou. De novo então o ar natural respirável, algumas não tão belas verdades na mente, e sonhos em reconstrução provisória. Cair fora do que ficou em ser lenda, e não se viu nem ao menos sombra ou vestígio do que passou, é abandonar o vício, e caminhar com alívio. Fichas para um carrossel de emoções, reais e apaixonantes, agora sim.

Giz.


Quis escolher uma cor qualquer, que combinasse com verão, que contrastasse com essa paz leviana que tem me ocorrido. Fiquei com o branco. Que desenhado por cima, clareia as demais tonalidades. Os tons pastéis que me acalmam, fazem sentir mais confortável, delicada. Pintar sobre as calçadas sujas e cinzentas um pouco de grama que amacie os pés, flores para embelezar a vista. Deixar sair de boeiros pássaros de origami, libertados. Rabiscar sorrisos em quem de cara fechada por mim passa. Redesenhar roupas onde as faltam - seres (promíscuos) humanos. Trocar os tons que em desarmonia estão, justíssimo. Construir com lápis e borracha laços que não desamarrem tão facilmente, tão precisos somos uns aos outros; necessitados. Apagador em mãos e extinguir todo vestígio de pichação - substituir por versos de um poema impactante e singular, que marque a quem passa, intrigue o dia alheio. Retrato nuvens tão vivazes que nos dêem o impulso de querer tocar o céu, e comer algodão doce. Se o sol não sair, prometo tacar o amarelo que está dentro do avental e fazer que brilhe muito, que as pessoas tenham vontade de sair pra rua e vivenciar todas as restantes horas dessas vinte-e-quatro, até o último segundo. Estar abraçadas, em companhia, enquanto o astro rei se põe, e o laranja chega, itinerante,  facilmente substituído pelo azul límpido, penetrante. Caso as estrelas se escondam também, respingo um pouco de glitter para que estas queiram usufruir de todo o brilho, e se maquiem com tanto glamour que deitados num mesmo cobertor, eu e você possamos de cima do morro tentar contar a infinitude dessas que no dia seguinte se escondem e voltam sempre - tantas. Mesmo que sejam os corpos celestes que até podem ser os nossos, mas que estão no teto do seu quarto.
Recortar com bravura os engarrafamentos, a poluição, o caos em forma de som que a cidade nos presenteia. Para abafar as buzinas ensurdecedoras na hora do rush, final de tarde, em seus ouvidos faço existir dois grandes fones, com aquele som que só a gente conhece, para que você se transfira dessa loucura toda. Estampar no rio que desagua da nossas mil vontades quem sabe um bote, iate, ou barco à vela, para que a gente encontre qualquer rumo impossível e fuja da banalidade, ostentada. Em teu pescoço, pincelo meu enorme desejo que por você tanto brilha, em forma de beijos, e sussurros desavisados. É no meu abraço acalorado que te pinto (a)tinjo meu coração, apertado. Corada, sem jeito, e te reproduzindo cada vez mais nesse rascunho que guardo, e não jogo fora nunca. Com a câmera fotográfica que, sonhadora que sou, desenho, afim de captar todo e qualquer momento de todo essa alucinação que criamos, e com tanta criatividade, suportamos sem querer que termine. Se sujamos, nos delineamos, não tanto coloridos, mas com lápis, giz, borracha, canetinha, papel crepom, cola, glitter e afins pintamos uma realidade que não é nossa, e que num borrão, tentamos agora voltar ao branco, à paz, ao quadro limpo. Eu, uma desenhista que ainda tenta, mesmo fracassada de nascença. Qualquer tela em branco pra mim é possibilidade, e a mente vasculha atrás atrás de uma nova arte, alguma novidade.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Antiga.


- Você é antiga.
- E você não é a primeira pessoa que me fala isso.
- Consigo te ver de vestidos rodados, e meias soquete com sapato. Cintura marcada, e cabelos enrolados. Buscando o leite em garrafa de vidro, a cada manhã. Congelaram o protótipo de mulher ideal das décadas passadas, e por isso é que você já veio ao mundo com opinião, grandiosa. Mulher.
- Isso tudo é o que você fantasiou.
- Você gosta de telefone celular? Não tanto. Você se diverte nas festas com música eletrônica, superlotadas? Muito pouco. Você não sabe levar relacionamentos inseguros. E quando cede alguns beijos sem compromisso, se ressente todinha, que eu sei.
- São referências, e não fatos. Mesmo gostando muito desse rótulo retrô, acho que as modas voltam. Mudam pouco, rodam ciclos, e retornam. Mais alguns anos, e a promiscuidade cede lugar ao modo vintage de ser, o novo must have.
- Consigo ver você tragando em piteiras enormes, farta de jóias, impecável numa cozinha fazendo o almoço café e jantar, para o marido e os filhos famintos.
- Gosto de cozinhar. E caso quisesse escrever nas horas vagas, será que algo visto com bons olhos no meu verdadeiro antigo tempo?
- Se seu marido fosse um liberal, acho que tudo bem. Admita: você pilota muito melhor fogão, que automóvel. Prefere cartas, longos escritos, às tão banalizadas conversas instantâneas. Esperou para se dar inteirinha para um cara que te ligaria no dia seguinte. Já tomou seus porres, coisa que até os mais idosos de alma fazem, desde os primórdios tempos. Apenas tem preferido a discrição atualmente, o que é respeitável de uma peça antiga como você. Não beija mais que dois na mesma festa, mesmo se for o príncipe dos seus sonhos (que eu tenho certeza que existe no seu lado idade média, admita também). Aliás, se descobriu no barzinho. Cansou do ritmo acelerado e dos papos fúteis da noite badalada. Você está é em extinção.
- Tudo bem, eu admito sim todos esses fatos. Com certo orgulho, talvez. Mais alguma acusação?
- Abre mão das drogas ilícitas, usufruídas por praticamente todo jovem atual. Por você, o cara só beijaria sua mão no primeiro encontro. Pediria em namoro aos seus pais, como sinal de respeito. E o noivado? Numa grande festa, pedindo a sua mão com um anel enorme em brilhante.
- Verdade, verdade. E quem não quer esse romantismo arcaico? Passear de cavalo com longas tranças, ser salva do tédio não sei se pelo príncipe, mas algum Robin Hood da era moderna, que dá alegria à quem precisa, e a tira de quem não valoriza o sorriso com bravura? Muita mulher é assim, e apenas não se assume ser arcaica.
- Você sonha em viajar para o velho continente, Europa, que eu sei também. Escuta as músicas que seus pais hierarquizaram para você, e gosta disso. Não compreende a bissexualidade, mas aceita os homossexuais como quem quer abraçar alguém logo após um acidente: cheia de compaixão. Trair, para você, além de falta de amor é algo imperdoável. É tímida, só se soltando quando já conhece bem o terreno em que pisa. Não faz amizades por conveniência, e nem sai sorrindo por aí, efusiva. Se fecha com seus livros, e mundos paralelos. Satisfeita com sua família, amigas, e outros pouco selecionados. Você é a antítese, o paradoxo.
- O que é contrário sempre se associa a certo medo, e quem sabe, prazer. Não quero ter que provar que gosto do que repugno e aceito o que acho intolerável apenas para agradar aos moderninhos de plantão. Tenho pavor de montanha russa, e a imbecilidade dos jovens quando em bando me dá náuseas. Sou feita para andar em par, em trio. Festa é algo pra de vez em quando, se não deprimo logo. Todas aquelas conversas montadas, as relações superficiais em que um quer mostrar ter mais que o outro me fazem bocejar. Para escapar da rotina, é que ensaio a tentativa de me parecer com todos os outros, ocasionalmente.
- Vão querer te xerocar, qualquer dia. Uma clonagem em massa, do fenômeno que é não pertencer a esse mundo superficial.
- Daí me reinvento mais uma vez, não para seguir algum modismo, mas sim para camuflar a essência um pouquinho, e escapar sem demais arranhões.
- E se você esconder tão bem e o Robin Hood não te perder de vista?
-  Jogo pelo caminho um pouco do elixir da essência: é o que marca, fica, e aponta as setas de quem a gente realmente quer encontrar. Antiga, ou não.