domingo, 27 de março de 2011

Utopia outonal.




(Nós vamos entrelaçar os pés nas manhãs refrescantes de outono, assistir lutas de madrugada na televisão, dar voltas intermináveis de carro pela cidade, fazer duetos de músicas bregas, viajar para as montanhas e sentir o ar gélido na ponta do nariz, vermelho. Dormirei com seu pijama, enquanto lhe empresto meus livros. Você me pedirá ajuda com os mapas, e no meu fracasso, uma pequena briga. Pela nossa cumplicidade tamanha, e ventura desvairada, curada logo em seguida, em cálidos beijos no pé do precipício: quando o infinito é sim, além. Haverá a busca dentro da chuva, no meio da noite, em que você me resgata da revolta dos dias de azar. Jantar à luz de velas, quando a eletricidade cessar sem tempo certo para voltar. Fotos tiradas apenas de nosso conhecimento. Abraços apertados no meio da cozinha. Dois celulares desligados.  Folhas de outono secas, presenteadas, no meio da agenda - recordação - disso que iniciamos viver e hesitamos nos beliscar, caso seja sonho e acordados sejamos para o regresso à realidade fria e crua, desmazelada, a que vivemos. Por enquanto, não. Brigamos em meio aos travesseiros, e ofegantes, cessamos os movimentos físicos para dar início às filosofias da fala. Rodopiamos por entre todos os assuntos do mundo, em nossos pensamentos comuns. Cozinharei, para que você lave a louça mais tarde. Tomaremos champanhe no bico, no mesmo gargalo, sem se importar se amanhã é quarta-feira ou segunda e a rotina nos chama. Venerarei com meus olhos detalhistas a nuca onde, por mim, faria moradia. O par de olhos no escuro, que é laterna e projeta no quarto reflexos da nossa brincadeira de ser casal, inconsumada. Os ombros largos, onde faço gosto de me resguardar inteira: sempre. E detestaremos tomares, exaltaremos chocolate e café de todos os tipos. No colo um do outro, divagações sobre as catástrofes mundiais, intermináveis e suscetíveis. Seu braço em torno do meu pescoço, no relampejo mas forte. Minhas mãos amaciando suas costas, depois dos dias cansativos. Pensar que o mundo que desconhece você, é uma parte da Via Láctea a não ser visitada; é infeliz. Desafabos sobre a vida moderna que nos atrela, no feriado que é cada um desses instantes mágicos, em dupla. Dançaremos ao frenesi do luar, na sacada mínima de onde você vive. Desejaremos o céu como rota. Compartilharemos sonhos em comum. Ter você pela manhã, querendo fazer parte do seu dia todo. Me entregar a você, de tardezinha, para que a noite seja nossa e prolongada. Das poucas horas juntos, faremos com que na marra, sejam estas intermináveis. Dos dias separados, uma saudade aumentada para que quando consumida, em conjunto, a intensidade do toque, dos gestos, das palavras, em nós atinja em cheio - e deixe avivado tudo aquilo até então, construído. Querer você mesmo suado, sem nojo, pudor ou culpa: de mãos dadas com o desejo. Escrever no seu espelho com batom antes de sairmos de casa. Beijar você do seu andar até o térreo, sem se dar conta que a porta abriu e o elevador chegou ao estacionamento. E principalmente, por desconhecer o que o futuro reserva, guardar tudo isso na memória, nas páginas mais bem decoradas e acessíveis para revisitar sempre, a qualquer hora. Como as folhas de outono no meio da agenda, aquelas que você me deu enquanto passeávamos com o cachorro no parque perto aqui de casa).
É quando ele sai do banho e me vê pensativa olhando na janela a chuva fina que cai e nos pegará em instantes, em mais essa manhã de palavras poucas e resmungos significativos. Indaga:
- O que é que você tá pensando aí, quieta?
- Nada. Começou mais um outono, só isso. Vem pra cá enquanto o tempo é nosso.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Não tenho roupa.


O armário lotado parece murmurar: hoje não, não tem roupa. Eu, que pela vontade própria vestiria o dia inteiro pijama se em casa ficasse, penso na possibilidade - que minutos depois, avalio como inexistente, infelizmente. Dentre a bagunça das peças reviradas, ao avesso, atrolhadas na cama, desordenadas, a sensação de que nada vestiria por completo o humor que carrego e pertenço ao acordar, e desde cedo o mundo deve saber. A manhã acorda e raia o sol, enquanto o tempo parece correr e minutos se tornam segundos. A pressa toma conta dos atos, a desgovernança da tranquilidade matutina, ilustre lugar da paz. Há uma maestria na ordem do sumiço dentro do roupeiro, as portas certas se fecham, quando deveriam abrir, e a blusa correta, junto com aquela saia, se refugia no lugar mais improvável que nosso olhar, mãos e desespero vasculham. Macaquinhos procurados no verão reaparecem, fantasias para possíveis festas à fantasia ou halloween se redescobrem. E nada da mistura explosiva que necessito exibir. Insatisfeita e com a sensação de monstra do dia, feia do mês, e brega do ano (concorrente à todas as estatuetas do Oscar das mal vestidas) lá vou eu mostrar pro mundo esse lado descombinado que nem mesmo sabia existir nos dias ruins.

Ele liga e pergunta se quero jantar fora. Murmuro baixo, para que não ouçam. Aceito, e mascaro a felicidade latente, para contar apenas a quem perceber. Em casa, o drama de dias atrás, daquela semana passada, de uma vida inteira reaparece com força estrondosa. Ressurgido das cinzas, como quem me diz: desista de comprar todas as calça jeans bem ajustadas, vestidos de altura certa e blusinhas coringas do Universo, para hoje você não tem roupa. Xingo a diarista, que de certo, deve ter escondido numa intuição de saber que precisaria eu, mais tarde, justamente de tal indumentária. Até mesmo metida dentro das gavetas, quem sabe em Nárnia, algum achado que não estas simplicidades que provo, provo, e desgosto. Resolvo começar o look pelo sapato, aquele novo. Vestido e colete, que troca e vira vestido com jaqueta, que despe e troca por saia jeans e blusinha preta; mais básica impossível. É assim que vou, e pronto - se ele me quiser, que seja sem esses artefatos têxteis que nada dizem, e ao mesmo tempo nos entregam. Roupa é complemento, penso. Sapato sim, é necessidade feminina, concluo. E com a bolsa recém adquirida, lá desço eu para esperar o cara que me ligou e disse já estar aqui na frente, espero que me ache gata mesmo no dia em que me sinto apenas borralheira.

Entrevista de emprego. O que vestir para passar sobriedade, e também, jovialidade? Como me mostrar responsável, e deixar a sensualidade, o glamour e feminilidade em casa? Complicado. Paciência, peço a mim mesma. Voraz, me vejo bagunçando novamente as dobradiças impecáveis que construí ontem à tarde, num momento de parcimônia e inquietude. Terninho, e depois calça jeans. Saia alta, bata, botas, scarpin. E nada. Me pego sentada, de calcinha, sutiã (ambos singulares, desconjuntados) na cama, como quem quer chorar mas não vai estragar o make. Mãe, não tenho roupa. Linda de qualquer jeito, ela diz. Mas vai simples, completa. Sem brilho e cor demais, esquece o xadrez e o salto alto. Sapatilha, vestido simples e casaqueto, me vou. Saio como quem quis ficar, incompetente de combinar o que compro.

Ócio puro. Uma tarde vazia que se decorre do sofá para a mesa da sala, das escadas, para a cama no meu quarto. Resolvo brincar de estilista própria, e provo metade do meu armário - quase explodido. Acho combinações perfeitas pra tudo que é ocasião, e prometo vestir algum dia. Outro qualquer que o inconsciente grave, e lá adiante, apenas pegue o vestuário certo, sem deixar que me consuma um pingo de indecisão. Sabendo que, pela frente, muitos outros dias em que terei todas as vestes do mundo e não encontrarei nenhuma que preste, virão. Me reconhecendo no grupo a que todos nós pertencemos daqueles que mal prestam atenção quando o certeiro lhe passa; e sentem falta depois, de mãos (ou corpo) vazio. Nu.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Homem quando quer


A questão é tão simples que a gente finge complicar, para dar mais emoção. No fundo, sabemos realmente as verdades nuas, cruas e cruéis que fazemos questão de deixar passar, despercebidas. Despejamos as mais chatas das perguntas de se o cara tá afim ou não, analisando minuciosamente comportamentos e atitudes, falas e movimentos, com as amigas mais próximas (coitadas) e mentimos para nós mesmas tão bem, que quase nos enganamos - mas mulher sabe, e quando comete o delito de se transformar na louca carente desenfreada, sente na espinha a corrosão do erro cometido, do desacerto na ponta da língua, ao procurar quando não devia. Sem esquecer do jogo; e da comemoração, só feita quando os acréscimos terminaram e o abraço corrido já se deu por ocorrido. Vitória, para ambos.
Até então, na escalação, dois times: os caras que estão afim, e os que não. No primeiro time, estão aqueles que podem ir até o babão que corre atrás de você desde a infância, ao cara que você também tá afim, mas dá aquele tempo, disfarça e se segura. Enquanto ele não some por mais de três dias - é a regra universal, todos conhecemos - quer saber mais sobre a sua vida, ao invés do seu rebolado e te leva para jantar, aonde quer que seja. Apenas os bons moços, desse lado da rivalidade. Bons moços, e caras espertos (no ótimo sentido, pra todo efeito e nesses casos). Jogam aqui os que combinam com horários certos, procuram você sem ser insistentes (porque se forem em excesso, merecem ser ignorados para compreender com êxito o real sentido da sua negativa), convidam para programas legais e sentem o maior orgulho em estar ao seu lado. E a valorizam. Fazem dias comuns se tornarem inesquecíveis. Ligam mesmo após um dia cansativo, porque simplesmente gostam de você. E mesmo sutis, são perceptíveis. Surpreendem com pequenos atos, mesmo sendo caladões. Se tímidos, com você, fluentes. E raros, com o tempo fazem você perceber cada vez mais, o quanto valem a pena. Sem pressa, mas com atitudes - sim, eles tem - precisas, tem a sede de vitória que só você mata. Na maioria das vezes, se sagram campeões.
Do outro lado do campo, o time oposto. Bad boys, e cafajestes. Imaturos, inexperientes, ou aprendizes que não sobem nunca de nível - embora tentem. Lembra daquele cara que te fazia esperar sentada, maquiada e bonitona, pra nem aparecer? Ou aquele outro que mentia e inventava desculpas, tinha uma em cada canto da cidade e horror a compromisso? Então, também é veterano nessa equipe de derrotados. Moços que não ligam quando devem, e reaparecem apenas quando bem entendem. Telefonemas que não chegam. Relacionamentos instantâneos, fugazes e incertos. Intenções talvez nem más, contudo: inexistentes. Vão no banheiro e opa, quando você vai, passa por ele no caminho, debruçado no pescoço alheio (feminino). Mil promessas de amor não cumpridas, voltas e reviravoltas, egos imensos. Querer quando convém. Medo de qualquer intimidade que apareça com o tempo, ou intensidade sua, que escape num dos choros e guerras, cessar-fogos e bandeiras brancas por esses caminhos tortuosos e indesejáveis. Entram em campo com estigma de campeões em pé, e são derrubados no menor piscar de olhos: na corrida da vida que é esses relacionamentos que se entrelaçam e são sorte e azar, se confundem entre momento ideal, pessoas corretas ou não e afinidades em comum. Fatores decisivos, todos.
De fora de qualquer sentimentalidade, tenho acompanhado e visto mulheres cair na dúvida do que, de tão simples, complicam pelo prazer de também transgredir. Toda essa cegueira da qual tenho nojo e pavor, tamanha a simplicidade dos fatos que rodeiam. Chega a doer assistir ao desvario de companheiras de copo e de noitadas, faculdade e salão de beleza, esquecidas do que é necessário para não se deixar engolir ou enlouquecer por essas partidas por vezes enganadoras, quase nunca bem apostadas. Se ele estiver afim, será nítido. Transparente. Nem mesmo os nãos ditos no caminho serão capazes de fazer com que pare de correr. Homem quando quer, atravessa cidades e vai até o impossível. Encontra você, da maneira que achar, porque de tanto que deseja, vai atrás sem nem pensar em prejuízos e prerrogativas. Quer mais é correr atrás do que caça, e travar luta com os dragões no caminho. Empunha espadas, e a salva da torre maldita que é ser mulher e assistir a isso tudo, podendo muito pouco modificar um destino. Que resulta nisso aí mesmo: homem gosta de conquistar, é da natureza masculina.
Desde cedo, lhes foi doutrinado o papel de ir atrás e disputar, dominar e vencer; militar arduamente para se alcançar o objetivo a atingir, ver cada gota de suor no formato de recompensa. Depois de tantos dribles e percalços, tapas na cara, faltas e impedimentos, vamos logo nós femininas,  e de salto alto marcar o almejado gol? Não é justo, não nos cabe. Torcer, sim. De forma sucinta e silenciosa, para exprimir a felicidade e não deixar que a inveja corrompa. Agora, se ele quiser, e você também, os saiba que os adversários ficam para trás e são vencidos. Sejam eles o time do lado de lá, as paralisações necessárias, a prorrogação ou os pênaltis. Quando dois querem, unidos ganham o mundo.

segunda-feira, 14 de março de 2011

O problemático



Você tentou provar por x + y que o resultado não seria você. Não foi. Tentou equacionar o padastro com quem ele não se relaciona bem, as drogas que usa para esquecer o mundo, ou ainda, o relacionamento de três anos que derrubou com toda a auto-estima do coitado. Por fim, descobriu que o problema não estava nos seus pés grandes demais, ou no estilo de vocês, tão incongruente um ao outro. O problema é igual a ele, e ele se encontra dentro do conjunto de fatores que engloba a questão: há sempre um problemático que tranca nossos dias para que depois dele, nos tornemos experts na raça de Marte.
E nós, mulheres, nos descabelando com física, química e matemática. Ainda fosse. Pena que esquecemos que, como fêmeas, deixamos sempre ligadas as anteninhas da solidariedade, prontas para nos revelar um mártir à altura do radar. E com todo nosso cuidado, psicologia, colo, paciência e mimos, lá vamos nós em mais essa aventura de resgate másculo.
Tudo era perfeito. Ele lindo, você apaixonada. Até o dia em que começam os sumiços repentinos, desculpas pela metades, atos estranhos ou impensados. E puxa, o que será que aconteceu? Ah, é o avô dele que está no hospital. E nossa, o pai foi demitido. Ou ele se sente um merda no trabalho, por não conseguir ser promovido nunca. Quem sabe, entrou no mundo das drogas e agora não vê saída de largar o vício vivo. Pode simplesmente não saber o que quer da vida, e estar confuso quanto ao seu mundinho quadrado. A verdade é que, aos poucos, ele se torna tanto o problema, que esquece de ser ele mesmo. Se não pode ir ao jantar da sua família, sabe como é, estava deprimido. Ia a uma entrevista para outro emprego. Estava com os amigos que bonzinhos que o levam direto para o bom caminho. E sabe como é, você tem que dar apoio. Entender, e não criticar. Ele, que adorava beijar você por horas intermináveis e ver um filme atrás do outro, agora só a procura para despejar o que o aflige. De namorada, você quase passa a ser terapeuta. Ou de ficante, o relacionamento nem evoluir consegue.
Isso, com certeza começa a fomentar a infelicidade aí dentro, e deixar pegadas de se o erro é você, que se meteu na vida do moço justamente na hora errada, ou se o impasse é que é enorme demais para ser combatido conjuntamente. Você, cada vez mais tentando ajudar, e compreender, quase vestindo as botas vermelhas da Mulher Maravilha para que tudo passe logo e volte a ser como aqueles dias, no bom princípio que o destino reservava para os pombinhos, e se perdeu nas velhas folhas do calendário. Ainda assim, nada resolvido. Proporcionalmente, a distância daquela divindade que pensava ter encontrado no começo, aumentada: lá trás, no formato de lembrança. O rapaz fingindo não ver o que com ele acontece, e apenas o próprio, pode solucionar. Vendando os olhos e esperando que tempos melhores cheguem de uma vez. Projetando em quem nada a ver tem, o que nele deveria refletir e ressonar. Porque mesmo que nas costas, cruzes enormes sejam carregadas, quando ao lado alguém que realmente nos faz sorrir estiver, os lábios não exitarão em deixar os dentes à mostra. E tudo, que era então dificultado, se tornaria mais fácil, quase indolor. Facilitado. Seus recursos e salvações todos em vão, e o abismo entre os dois cavado cada vez com maior profundidade. Para quem realmente quer, os problemas se tornam coadjuvantes. Ou na verdade, nem existem.
Saldo final: culpa, ressentimento, dúvidas. Sendo que, tirada a prova real, tudo certinho: não houve erro, da sua parte. Já da dele, negligência; desatenção. Perder uma mulher assim tão poderosa, heroína e corajosa, não é para os fracos: e sim, os covardes de enfrentar essa vida com olhos abertos e coração valente.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Pero sin perder la ternura jamás




No meu período pós-revolucionário, uma porção de efeitos e consequencias. Minha subversão interna, aparentemente, catastrófica; em contrapartida, necessária. Houve lágrimas e uma dor aflitiva. Rotas traçadas que desembocaram em caminhos impensados. Ataques impróprios, traições nunca antes sequer cogitadas. Em guerra, por tempos de paz. Pela liberdade do espírito; em prol da chama acessa, porém plácida: viva, sem peitos feridos e incêndios verbais. Flamejante. Após o tempo de descanso necessário, de pé e pronta para outras: me tornei uma guerrilheira do bem próprio, sem nem ao menos notar.
E sim, enrijecida. Da ótica positiva, mais forte, até mesmo curada. Olhar atento aos relacionamentos ao redor, feito órbitas de um Saturno que é individualista e vê apenas o seu centro exato, intenções e quereres mais íntimos. A sensação de nunca mais conseguir ser tão frívola e imaginativa, de uma felicidade tão tola que inquietasse a vida alheia. Sem o sentimento aéreo de crer no desacreditável, e ter fé naquilo que não vingaria nem mesmo com terços rezados e bençãos dominicais. Hoje, estática. Firme em minhas convicções, descrente total do que realmente representa o amor, e este pode representar. Nunca mais ter a base estremecida e os tremeliques sutis de se sentir viva não porque dá pinote o coração, mas sim, porque o órgão funciona além de apenas bombear sangue para o corpo todo. Abandonar a fantasia de cair em beijos quentes e arroubos de paixão repentinos. O amor deixou de me comover, para me dar náuseas: regurgito palavrinhas e pensamentos internos tão racionais e céticos que quase me sinto matemática. Farejo no ar a hipocrisia de casais de fachada fake, que brigam quase diariamente, e à noite fazem as pazes, no calor da hora - just for sex. Descreio namoros, analiso friamente ditos e ações, assisto possibilidades que quem ao lado anda, parece não enxergar com alta resolução: é triste, mas gira o mundo por dinheiro, sexo e por último, amor. O mais nobre dos sentimentos, banalizado por tantos que querem e pensam sentir o que nunca até então lhes ocorreu. E lá vão estes falar "eu te amo" antes da hora. Firmar compromisso sem nem ao menos em tal estágio se encontra. Enquanto várias das moças que observo acham um amor, muito bonitinho, que fofo, penso calada em como consegui assim viver por tanto tempo. Nas falseações de tanta coisa que não existiu, e fantasiei, ansiosa por bancar a princesa Disney e distraída, não notar que vestidos bufantes e saltos de cristal não cabem e nem se acomodam na realidade da mulher moderna. O olhar treinado e a percepção ampla do que poderia facilmente vencer essa barreira que impus, abstraída, e daquilo que nem em trocentas tentativas me tocaria de maneira brusca ou até mesmo intensa para que abalado fosse esse estigma sólido de sentir que construí. Difícil encontrar nas imaginações de futuro este protótipo de mim que foge dos tentáculos de afetos e apreciações quaisquer, tão pueris era eu antes dessa última queda. Quando foi que queimei os livros de auto-ajuda aqui de casa, e comecei a redigir minha própria história com final etéreo, e no caminho e com continuidade, feliz? Faz parte da trajetória, eu sei. Deixar que nos atinjam em cheio para que quando o tornado retornar, fortalecida esteja o refúgio, nossa defesa: a alma.
Endurecida, então. Sem perder a habitual ternura de tilintar cílios e absorver com os olhos. Com uma pitada do humor ácido na ponta da língua e sorriso de quem sabe do mundo, e não conta. A mesma doçura de sempre, porém com toques, rotinas e pessoas programadas, à dedo selecionadas. Porque há que ser brava, e simultaneamente, branda. Fundir sensibilidade com coragem e pulso.Saber a hora exata de sumir, silenciar e agir, sem pestanejar. Sem perder a ternura, jamais.

Estimação



Quem é essa que chora com cena de novela, e se pega rindo, irônica e erroneamente, quando a briga é séria? A moça que não vive sobrevive sem doce após o almoço, e se uma soneca no meio da tarde tirar, muda o humor como quem vasculha o próprio armário: à procura do espírito que sirva e agrade. Experimenta. Troca. Aprova, mesmo sabendo ser pouca a duração da escolha. Não fosse por um olhar mais atento, quase não reconheceria.
A dita que no cheiro das livrarias sente o consumo coçar-lhe a mão, o cartão querendo asas na carteira. Horas gastas, obras de perto apreciadas, frustração sem sacolas e mãos que abanam, vazias. E então: sapatos. Coloridos, altos, femininos. Como num passe de mágica, a volta estonteante do desejo de comprar instantâneo, brusco. Experimenta um, quer dois. Poderia comprar quatro no cartão. Senta. Reflete, viaja, conspira. Decide: o preto não, já tem três. O rosa aperta o joanete, a praga e herança bailarina. O azul é diferente. Sai da loja de sacola esvoaçada e o mundo carregado naquela caixa de papelão: a alavanca eficaz pra qualquer auto-estima feminina. O salto, onramental ou simplesmente doze, que deixa a visão mundana amplificada, gostosa de admirar.
É a mesma donzela que chega em casa, e cozinha. Reencarna a Ana Maria Braga distinta que há meses nela se perdeu. Sal de menos, açúcar demais e: nada de paixão. Vai de biquíni pro sol escaldante lá fora, morena, cabelos negros, efusivo; todo seu. Em plena civilização, o ritmo do dia correndo às pampas, e o corpo estacionado em direção ao princípio da existência, à estrela maior. Música nos ouvidos, olhos reclusos, quase sono. Redescobre astros e constelações no céu azulado, esquece as cortinas abertas e se manda pro banho de horas. Se desdobra para não dar show aos vizinhos, de toalha no corpo e cabeça. Finge a surdez quando chamada, troveja a voz, quando a urgência se apresenta. Dama paradoxal, quer os leões do sacrifício diário todos vivos: seus percalços são como bichanos de estimação. Zelo comum: recíproco. Alimento e carinho em troca de resguardo. Para que a cuidem quando a vida quiser a engolir, para que a protejam, vociferando os percalços do caminho, um a um. Cansada de ser várias sem agrado e aplausos exaustivos, quer ser apenas essa uma que dê certo, que ganhe o papel no fim do teste. Dentro do que é, tantas. Em cada uma delas, a mesma, na versão atualizada do que o momento pede, a hora necessita. O encontro da parte sensível, com a brava. A mistura de ser impulso com precaução, instinto e admiração. Deixar que a louca se vá, para que venha a santa, benévola. É quando o tempo esquenta que chove inteirinho aqui por dentro. Na fuga da ansiosa, se deparar com a compulsiva. No rito interminável de me redescobrir, é que aos poucos me fragmento. É no meu sono que começam meus sonhos; e ao vivo, que encontro determinação para realizá-los. Definir não limita, impossibilita. Aborta espontaneidades e futuras surpresas. Que é quase outono, e não há porque sacrificar os desafios do caminho: nesses que verdadeiramente nos encontramos, pelas beiradas. Os leões tem de ser cuidados e acariciados, com cuidado e parcimônia. Que é quase outono, e o abrigo é necessário: o pior frio é o que congela a alma e impede movimentos.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Um breve comunicado.

Sei que muitas pessoas vem acompanhando o blog, e gostaria apenas de esclarecer algumas coisinhas. Bem, os textos aqui postados são TODOS de autoria minha. Tive algumas ótimas fontes de inspiração, que se soma aos anos e anos das mais variadas leituras, tomando gosto indiscutível pela introspectiva.
Antes de criar meu perfil para moderação, já tinha este blog. Poderia ter outro nome, e era sim anônimo, porém eu o encarava apenas uma válvula de escape para os meus sentimentalismos mais mundanos e desabafos, numa tentativa de permanecer lucida e em paz. Peço que relevem também os erros de português. Eu escrevo com bastante pressa, porque meu pensamento é rápido, muitas vezes até, tenho duas, três idéias simultâneas, e só vou digitando digitando digitando. Sim, o teclado já está bastante debilitado devido à minha força e intrepidez. Agradeço à força positiva que muitos vêm me dando, aos elogios, desejos de sucesso, de paz e todas as coisas boas que me estão sendo proferidas. O meu mais sincero obrigada, de coração. São pessoas assim, que ainda deixam o coração se manifestar, que ainda choram, ou se tocam com textos demasiado emocionais, que me fazem continuar em frente.
Um último ponto a ser esclarecido: dos meus textos e poesias, poucos seguem alguma linha cronológica. As poesias, muitas vezes não refletem o que eu sinto, mas amigas próximas, ou mesmo pessoas que você capta a aura, a essência. Embora, os textos são todos os meus sentimentos, sim. Os rapazes a que me refiro, não são sempre os mesmos. Digo certamente que aí, nesses quase um ano e meio que já venho escrevendo no blog, tenho aproximadamente cinco homens a que me desprendi de tempo e vontade para falar algo. Fora alguns outros perdidos e que escrevi apenas uma vez sobre, e apenas transcrevi aqui textos de um caderno em que eu escrevia à mão.
É isso. Mais uma vez, o meu muito obrigado. Sei que muitas pessoas ficam receosas em comentar aqui, e me deixam recados, ou mesmo depoimentos secretos com adjetivos maravilhosos, mas não se acanhem...Por mais temperamental que eu possa ter soado, não mordo.