quinta-feira, 14 de julho de 2011

Anteontem



Uma amiga disse ontem, que dois meses atrás, quando tudo ainda era início, não levava fé na gente. Chegou até mesmo a comentar com outra amiga minha que não duraria, que você veria como sou detalhista e observadora e noto tudo e exprimo o que sinto, e não aguentaria tanto tempo alguém tão certinha e que leva bastante a sério essa coisa de fazer parte do mundo do outro - quando realmente afim. Porque desde sempre, eu quis muito você, como já disse. E a outra amiga concordou.
Sessenta e poucos dias depois, o que vem a ser final de semana passado, ou mesmo anteontem, voltaram ao assunto: e puxa, não é que vem dando mais certo que a gente imagina? E que ele é assim, quase que do mesmo jeito dela? Que também entra nos mesmos tetos pequenininhos e que são incompreendidos por quem fica de fora da nossa linha delimitada de felicidade. Elas, que julgavam tanto você como moço quieto e sem muita paciência, hoje se forçaram a admitir que ou eu amadureci em larga escala, ou você é mesmo o cara ideal para mim. Sim, ela quem disse isso. Nenhuma invenção, sentença aumentada ou delírio meu.
Eu, sentada como quem já havia chorado rios no caminho chuvoso para a despedida da minha amiga, escutava em silêncio enquanto ela tragava o cigarro e discorria sobre nós dois. Que desde aquela primeira vez que saiu com a gente, no barzinho, viu que talvez, opa: desse certo. E que queria muito que você fosse dar um tchau para ela, pois ela gostava de você. "E sabe por que eu gosto dele? Por que ele te faz BEM criatura. Acorda!". Daquele jeito dela de quem vive num planeta próprio, em uma galáxia pertinho daqui. De quem nem vai ler esse texto, mas talvez algum dia adquira paciência e gosto pela leitura, e vai que né, encontra por aí, sem querer esse meu escrito.
Daquela tristeza de discutir com você, de quando o dia passa de "agradável" ou "suportável" para "o pior momento de todo o milênio", da pequena raivinha da sua demora e enrolação em me buscar pelo cansaço, aliado à falta de vontade de sair, eu sorri com todo esse discurso pró-você que parecia interminável mas matava lentamente todo recente caos entre nós dois. Alguém, dentre os tantos amigos ciumentos, e adversidades, e contratempos e diferenças que tentam nos barrar, agora acredita muito em nós, e quer que você fique comigo, e eu seja feliz e escreva livros por um bom tempo. Vi qualquer mágoa ir pra longe, senti a raiva sumir em questão de segundos. Porque ali, onde eu antes estava puta da cara enquanto ela fumava e não calava a boca, eu confirmei que não tenho sido louca nada, e sim feliz. Com toda a razão do mundo em curtir e querer cada vez mais você.
Minha amiga, que diverte enterro e desentedia prantos e tardes tediosas com aquela voz singular e as atitudes impensadas, depois daquelas frases todas me fez levantar e além de estremecer, sorrir. Começou a conversar com os dois franceses que estavam atrás da gente e talvez tenham escutado tudo, mesmo não entendendo praticamente nada. E eu ria, por que no hostel onde as pessoas se divertiam, eles temporariamente moravam. De repente, me puxa alguém e eu não vou. Vejo de relance seu moletom verde musgo e a calça jeans sem querer com aquele rasguinho, que talvez quem tenha feito fui eu. E me puxa de novo, e não titubeio. Te olho. Sem saber o que dizer. Dúvida entre: "por que é que você veio?" ou "disse para que você não viesse". Ou ainda, "para de me olhar lindo assim, e sério assim, que eu derreto toda e não fico mais com a cara de braba". Sei que fiquei apenas analisando muito cada detalhe seu e mesmo me sentindo muito feliz por dentro, consegui apenas exprimir "não vamos mais brigar, tá? nunca mais." Porque você chegou antes do que eu imaginava e me surpreendeu indo onde eu estava e você não queria comparecer. E não quero perder nenhum segundo do tempo de ser feliz do seu lado, que é exatamente agora, com discussões bobas de frases mal interpretadas. Porque você é esse anjinho com nome de príncipe que tem iluminado os meus dias, e eu, má que sou de vez em quando, é que ando querendo que você passeie comigo pelo inferno (bem ao contrário daquela frase da Adélia Prado que te mostrei). Porque eu gosto tanto, tanto, tanto de você, que é injusto o desgastar assim em mim, dessa maneira. E eu fico imensamente mais em paz com você ao meu lado, mesmo que seja não falando nada, cansado, apenas respirando e brincando com a minha mão. Enquanto eu tenho cada vez mais certeza, aqui dentro, que sérios e ciumentos, a gente pode mesmo ter se encontrado por acaso, mas fica por ter certeza que é feliz sendo a parte boa do dia do outro. O melhor casal de todos.