domingo, 25 de dezembro de 2011

Validade

Com pasta de dente que promete proteger por 12 horas, e desodorante que não vence por 24, cadê amor que dure mais de uma semana? É incrível como sonhamos com amores adequados, de laços duradouros e juras de eternidade que realmente se cumpram, e nos pegamos saboreando com gosto paixões instantâneas prontas em minutos. Ou três dias. Fugazes, breves, estonteantes. Tal como fosse prolongada, sem calcular o peso do dia de amanhã, a medida drástica de se entregar sem exigir nota fiscal. Se não de felicidade, de alguma segurança. Capenga, ou até insegura, mas de cabeça erguida, sono leve e mente tranquila: é normal, é cabível, é viver a vida com intensidade e muita vontade. 
Aprendemos a conviver com a superficialidade quase que por ordem, nos fizeram aceitar ser a personagem frívola na vida alheia, sem amarras e maiores preocupações. No meio dessa confusão inexata, a qual chamamos carinhosamente vida, descobrimos até mesmo que pode ser saudável a liberdade extrema, que a paz é o preço desse contrato assinado sem nem ao menos ler as letras miudinhas logo abaixo. Nada dói, tudo passa, e amanhã é outro dia. O leque é vasto, e as possibilidades se ampliam em esbarrões de ruas, em informações pedidas, num elevador compartilhado, naquele barzinho de sempre. As opções nunca foram tantas. Esquecemos as pessoas em casa, nos contatos do celular e cada dia somos diferentes do que ontem éramos. Uma nova versão, atualizada a cada manhã. Tudo é forte e fugidio, avassalador e acometedor. Hoje atração, amanhã gestos apaixonados, depois de amanhã insegurança, na semana seguinte, nunca mais. Sumiço, desfechos entreabertos, brechas para o futuro; buracos para o passado. Qualquer dia, na casualidade, um outro encontro, novo tom de sentimentos, um enredo inovador praquilo que deixamos para mais tarde.
Em consumo, buscamos a durabilidade daquilo que hoje não dispomos, sentimentalmente, talvez. O incomum tornou-se totalmente capaz: normal é não dar certo. Comum é saber a hora exata de cair de amores, e saber o momento ideal de levantar com vida. Ser sábio é notar em cada pessoa que nos atravessa o caminho a validade do destino que carregam em nosso caminho. Desencontros de anos. Reviravoltas de meses. Namoro longo, casamento, separação. Dois dias, três noites, e os melhores flashbacks para toda uma vivência. Válido, na verdade, é saber discernir do que nos alimenta cada um desses que cruzam o caminho: é de paz interior, e integridade? Com gosto de índole, e inteligência, desenvoltura? É no paladar que ou somos ganhos, ou nos deixamos perder. Por entre beijos, romanticismos, surpreendentes atos. Nos acertos, quando o mundo mostra que cada vez mais, é um lugar errôneo. Nos erros que, ironicamente, aprendemos a cultuar. A grande verdade é que, o tempo corre, e é minguado. Esgotado, sempre. Se damos nosso melhor, um passo e tanto para a vitória. Em recorde temporário. Caso nos encontremos com o prêmio de consolação no colo, por entre as mãos ou ao lado em uma sala de cinema, a sensação é tal a de perder não por incapacidade, e sim, por falta de ocasião.
Bom mesmo é crer que o perecível, se finda na hora exata: quando sua legitimidade termina. Alimentados de mistério e liberdade, identidade e maturidade, é de relacionamentos perenes que merecemos nos deliciar. Quem encontrar a mina de ouro, o brinde para a loteria, ou o caminho mais curto para a felicidade estável, conte. Espalhe. Chega de páginas puladas, e capítulos desordenados. A melhor mágica é poder descobrir o outro a cada dia, e se surpreender; o outro que pode ser o mesmo. Facetas, defeitos, manias, singularidades. Observar com atenção, e reinventar constantemente. É de início, meio e fim que nossas historietas precisam - nada de novelas intermináveis, com arroubos de ventura e agudas tristezas. Que seja válido enquanto dure.